Esta página não traz número nenhum, e isso é deliberado. Ela existe para quem vai receber um número de uma clínica, ou já recebeu, e quer saber se ele diz alguma coisa. A ideia é simples: todo resultado de reprodução assistida é uma divisão, e uma divisão só faz sentido quando se sabe o que está em cima, o que está embaixo, de quem e de quando. Quem informa o número escolhe cada uma dessas partes. Quem recebe tem o direito de perguntar quais foram as escolhas.
Todo resultado é uma divisão
Qualquer número de resultado tem duas partes. Em cima fica o que foi contado como resultado: quantas pacientes tiveram o desfecho que a clínica escolheu contar. Embaixo fica o grupo sobre o qual a conta foi feita: o denominador. O número final é uma parte sobre o todo.
Mudar qualquer das duas partes muda o número, sem que nada tenha mudado no trabalho da clínica. Um mesmo serviço, com as mesmas pacientes e o mesmo ano, pode apresentar números bem diferentes, todos verdadeiros, conforme escolha o que conta em cima e o que conta embaixo. Por isso a pergunta "qual é a taxa de vocês?" quase nunca tem uma resposta só.
A Resolução CFM 2.320/2022 manda a clínica expor no consentimento os resultados obtidos naquela unidade com a técnica proposta. Cap. I, item 4 · Res. CFM 2.320/2022 · consulta em 03/11/2026 A norma não define qual divisão deve ser feita. Fora da norma brasileira, o glossário internacional de termos de infertilidade e reprodução assistida, publicado em 2017 por consenso de especialistas e entidades da área, diz que, ao informar resultados de gravidez ou de parto, é preciso especificar o denominador: ciclos iniciados, ciclos com coleta ou ciclos com transferência. As perguntas abaixo servem para que a divisão apresentada a você venha explicada.
O denominador: sobre quem a conta foi feita
O tratamento de fertilização in vitro tem etapas, e em cada uma delas alguns ciclos seguem e outros param. O denominador diz em que etapa a contagem começa. Quanto mais adiante ela começa, menor é o grupo de baixo, e maior tende a parecer o número final, porque os ciclos que pararam antes já saíram da conta.
Por ciclo iniciado
A conta é feita sobre todos os ciclos de tratamento iniciados, em geral a partir da estimulação ovariana. Entram na conta inclusive os ciclos que foram interrompidos antes da coleta de óvulos ou antes da transferência. É o denominador mais amplo e o que mais se aproxima da pergunta de quem está começando: de todos os tratamentos que começaram como o meu, o que aconteceu?
Por coleta de óvulos
A conta é feita sobre os ciclos que chegaram à coleta e punção. Ficam de fora os ciclos interrompidos antes desse ponto. O grupo é menor que o anterior.
Por transferência
A conta é feita só sobre os ciclos que chegaram a ter embriões transferidos. Ficam de fora os ciclos em que não se formaram embriões e os que, por qualquer motivo, não chegaram à transferência de embriões. É o denominador mais estreito dos três, e por isso costuma ser o que produz o número de aparência mais alta. Ele responde a uma pergunta diferente: dos tratamentos que chegaram até aqui, o que aconteceu?
Acumulado, por paciente ou por ciclo de coleta
Alguns serviços somam, para cada paciente ou para cada ciclo de coleta, a transferência a fresco e as transferências de embriões congelados que vieram dele, ao longo de um tempo. O glossário internacional tem uma medida desse tipo, acumulada por ciclo de coleta ou iniciado. Esse número depende de quantos embriões foram congelados e de quanto tempo a clínica esperou para fechar a conta. O que é o congelamento está em congelamento de embriões.
Nenhum desses denominadores é o certo e os outros errados. Cada um responde a uma pergunta. O problema é receber um deles como se fosse outro, ou comparar o de uma clínica com o de outra que usou um denominador diferente.
O numerador: o que foi contado como resultado
Em cima da divisão fica o desfecho que a clínica decidiu contar. Os nomes variam entre serviços e as definições exatas também, e por isso vale perguntar qual foi usada. Em linhas gerais, os desfechos mais citados são estes, do mais cedo para o mais tarde, com as definições do glossário internacional de 2017 quando ele as traz:
- Teste positivo. No glossário, gravidez bioquímica é a diagnosticada só pelo exame de sangue ou de urina, sem confirmação por ultrassom. É o desfecho mais precoce.
- Gravidez clínica. No glossário, a gravidez diagnosticada por ultrassom, com a visualização de um ou mais sacos gestacionais, ou por sinais clínicos inequívocos.
- Gravidez em curso. A gravidez que segue depois de um tempo de acompanhamento que a própria clínica define.
- Nascido vivo. O bebê que nasceu vivo. É o desfecho mais tardio e o que costuma interessar a quem pergunta.
Entre o teste positivo e o nascimento há gestações que não seguem. Por isso, um número de teste positivo e um número de nascido vivo, da mesma clínica e do mesmo período, não são iguais. Um não está errado: eles contam coisas diferentes.
A norma exige que a clínica mantenha registro permanente das gestações e seus desfechos, dos abortamentos, dos nascimentos e das malformações, provenientes das técnicas aplicadas na unidade. Cap. III, item 2 · Res. CFM 2.320/2022 · consulta em 03/11/2026 Ou seja, o desfecho de nascimento é algo que a clínica registra. Pedir esse desfecho é pedir uma informação que ela tem.
Há ainda uma pergunta que costuma ficar de fora: numa gestação de gêmeos, o resultado contou uma vez ou duas? O glossário internacional conta cada recém-nascido como um nascido vivo, de modo que um parto de gêmeos são dois nascidos vivos, e tem uma medida separada que conta partos. A resposta muda o número e diz muito sobre como ele foi feito.
A faixa de idade
A idade costuma pesar no resultado. Os considerandos da própria Resolução CFM 2.320/2022 registram, entre os motivos da norma, que a população tem adiado a gestação e que engravidar fica mais difícil com o avanço da idade. Considerandos · Res. CFM 2.320/2022 · consulta em 03/11/2026 A norma usa a idade, também, como critério do número máximo de embriões que podem ser transferidos. Cap. I, item 7 · Res. CFM 2.320/2022 · consulta em 03/11/2026
Por isso, um número que junta todas as idades num resultado só não diz quase nada para uma paciente em particular. Ele depende de quantas pacientes mais jovens e quantas mais velhas a clínica atendeu naquele período. Duas clínicas com o mesmo trabalho e públicos de idades diferentes podem apresentar números muito distantes.
Quando há doação de óvulos, a conta fica ainda mais delicada. A norma, para o número de embriões, considera a idade da doadora no momento da coleta, e não a da receptora. Cap. I, item 7, d · Res. CFM 2.320/2022 · consulta em 03/11/2026 Vale perguntar se os resultados com óvulos doados vêm separados, porque misturá-los com os resultados de óvulos próprios muda a leitura dos dois.
A técnica e o tipo de transferência
A norma fala nos resultados obtidos com a técnica proposta, e não com qualquer técnica. Resultados de inseminação intrauterina, de fertilização in vitro, de transferência a fresco, de transferência de embrião congelado, de tratamento com óvulos doados e de embriões que passaram por diagnóstico genético são grupos diferentes. Um número que mistura todos eles não informa sobre nenhum.
O período
Os dados são de que anos? Uma clínica que mudou de laboratório, de equipe ou de forma de trabalhar pode ter números antigos que não descrevem mais o que ela faz hoje, para mais ou para menos. Um número que junta muitos anos dilui as mudanças. Um número de um período curto pode ter poucos casos. A pergunta útil é dupla: de que período são os dados, e algo mudou na clínica nesse tempo?
Há ainda o tempo de espera. Se o resultado inclui transferências de embriões congelados feitas meses depois da coleta, um período recente pode ainda não ter todos os desfechos fechados. Vale perguntar se a conta já está completa.
O tamanho da base
Um número tirado de poucos casos é instável. Com um grupo pequeno, um único caso a mais ou a menos mexe muito no resultado final. Isso vale especialmente para faixas de idade mais altas e para técnicas menos usadas, em que a clínica pode ter atendido poucas pacientes no período. Pergunte sempre quantos casos entraram na conta. Um número bonito sobre um grupo pequeno diz menos do que parece.
O que ficou de fora
Todo número tem uma regra de exclusão, dita ou não dita. Ciclos cancelados, pacientes que desistiram no meio, casos encaminhados para outro serviço, pacientes que congelaram todos os embriões e ainda não transferiram. Cada exclusão pode ser razoável, mas precisa ser conhecida.
E há uma exclusão que não aparece em tabela nenhuma: as pacientes que a clínica não aceitou tratar. Um serviço que recusa casos mais difíceis tende a exibir números mais altos que outro que os atende. Nenhum dos dois está fazendo nada de proibido, mas os números deixam de ser comparáveis.
Por que comparar duas clínicas é tão difícil
Juntando tudo o que foi dito: para comparar duas clínicas pelo resultado, seria preciso que as duas usassem o mesmo denominador, contassem o mesmo desfecho, separassem as mesmas faixas de idade, tratassem a mesma técnica, no mesmo período, com bases de tamanho suficiente e com perfis de pacientes parecidos. Na prática, isso raramente acontece. O que se pode fazer é mandar as mesmas perguntas às duas e ver se as respostas falam da mesma coisa.
A Resolução CFM 2.336/2023 inclui no conceito de sensacionalismo, vedado ao médico, adulterar e/ou manipular dado estatístico e científico para se beneficiar individualmente ou à instituição. art. 11, § 2º, c · Res. CFM 2.336/2023 · consulta em 03/11/2026 Escolher um recorte não é manipular. Mas um número que chega sem o recorte deixa você sem como saber.
Para o lado financeiro da comparação, que tem armadilhas próprias, veja como comparar dois orçamentos.
As perguntas que fazem o número significar algo
Se você guardar uma coisa desta página, que seja esta lista. Ela cabe num e-mail ou numa folha levada à consulta.
Para levar à consulta
Outras perguntas, com espaço para anotar, em o que perguntar na primeira consulta ▸
Como fazer esse pedido por escrito está em como pedir os resultados por escrito, e a lista completa para a consulta, com espaço para anotar, em o que perguntar na primeira consulta.
O que nenhum desses números diz
Mesmo um número bem feito, com todas as informações acima, descreve o que aconteceu com um grupo de pacientes no passado. Ele não é uma previsão para você. O seu caso tem exames, idade, condições e uma trajetória que nenhum grupo reproduz por inteiro, e é o médico que acompanha você quem avalia o que esse histórico da clínica significa para a sua decisão.
É também por isso que este site não publica números de clínicas: um número fora do contexto da sua consulta tende a ser lido como promessa. A explicação está em por que este site não publica taxa de sucesso, e o dever da clínica de informar você está em a clínica é obrigada a informar os resultados.
Conteúdo informativo, produzido pela Redação BYTX a partir de fontes públicas, listadas ao fim da página. Sem revisão médica declarada.
Perguntas frequentes
Qual é a taxa de sucesso da FIV?
Este site não publica esse número, de propósito. O resultado varia conforme a técnica, a faixa de idade, o denominador e o período, e só a própria clínica tem os dados dela. A norma manda a clínica informar esses resultados no consentimento.
Qual a diferença entre resultado por ciclo e por transferência?
Por ciclo, a conta é feita sobre todos os ciclos de tratamento iniciados. Por transferência, só sobre os ciclos que chegaram a transferir embriões, e deixa de fora os que pararam antes. Os dois números contam grupos diferentes.
Gravidez clínica e nascido vivo são a mesma coisa?
Não. No glossário internacional de termos da área, gravidez clínica é a diagnosticada por ultrassom ou por sinais clínicos inequívocos, e nascido vivo é o bebê que nasceu vivo. Entre uma e outra há gestações que não seguem. Vale perguntar qual dos dois a clínica contou.
O número da clínica serve para prever o meu caso?
Não. Ele descreve o que aconteceu com um grupo de pacientes no passado. O seu caso é avaliado pelo médico que acompanha você, com os seus exames.
Fontes
- Res. CFM 2.320/2022: normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida (D.O.U. de 20/09/2022)
sistemas.cfm.org.br ↗Quanto ao número de embriões a serem transferidos, determina-se, de acordo com a idade
consulta em 03/11/2026 - Res. CFM 2.336/2023: publicidade e propaganda médicas (D.O.U. de 13/09/2023)
sistemas.cfm.org.br ↗adulterar e/ou manipular dado estatístico e científico para se beneficiar individualmente ou
consulta em 03/11/2026 - Glossário internacional de infertilidade e cuidados de fertilidade, 2017 (Zegers-Hochschild F. e outros, Human Reproduction, v. 32, p. 1786), consulta em 03/11/2026
pmc.ncbi.nlm.nih.gov ↗A pregnancy diagnosed by ultrasonographic visualization of one or more gestational sacs or definitive clinical signs of pregnancy.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta. Cada caso é avaliado individualmente, e a indicação, o protocolo e a conduta são definidos pelo médico responsável, em avaliação presencial. Procure um profissional ou um serviço de saúde. Este site não avalia caso, não estima chance e não indica tratamento nem clínica.
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