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Especial
A revolta do homem absurdo
Albert Camus foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Os sentimentos que lhe impulsionaram sua obra, agiam frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol

POR JORGE LUIS GUTIÉRREZ

DIVULGAÇÃO
FICHA TÉCNICA:
A morte feliz
Por: Albert Camus
Editora: Record - 174 páginas

Tudo isto está simbolizado na escolha de Itaca, a terra fiel, que fora tema de seus escritos de juventude. Camus propõe um pensamento audacioso e sóbrio, uma ação lúcida e generosa, que seria a atitude do homem que compreende. Para ele, nessa luz, o mundo continuara a ser nosso primeiro e último amor. E acrescenta: "nossos irmãos respiram sob o mesmo céu que nós, a justiça está viva. Nasce então a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer e que, de agora em diante, não recusamos a adiar para mais tarde. Na terra dolorosa, ela é o joio inesgotável, o amargo alimento, o vento forte que vem dos mares, a antiga e a nova aurora". Nesta terra não há deuses, e ninguém pode tornar-se Deus. Aqueles que se alçam na historia como deuses são o objeto da revolta. Já está na hora, propõe Camus, de cada homem falar para os outros que não é Deus. E com estas palavras finaliza o livro: "um diz ao outro que não é Deus; aqui se encerra o romantismo. Nessa hora em que cada um de nós deve retesar o arco para competir novamente e reconquistar, na e contra a história, aquilo que já possui, a magra colheita de seus campos, o breve amor desta terra, no momento em que, finalmente, nasce um homem, é preciso renunciar à época e aos seus furores adolescentes. O arco se verga, a madeira geme. No auge da tensão, alçará vôo, em linha reta, uma flecha mais inflexível e mais livre".

Camus morreu em 4 de janeiro de 1960 num acidente de carro quando voltava para Paris. Assim, sua vida foi interrompida bruscamente. Sartre dirá que para todos os que o amaram há nesta morte um absurdo insuportável. Mas quiçá foi nesse último momento, enquanto enfrentava a morte, que se tornaram mais lúcidas as palavras que ele escrevera anos antes em um dos seus primeiros livros: "penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror".

Jorge Luis Gutiérrez é doutor em Lógica e Filosofi a da Ciência (Unicamp). Professor do Curso de Filosofi a da Universidade Mackenzie, da Faculdade São Bento e da UMESP. É autor do livro Aristóteles em Valladolid que trata sobre a Controvérsia de Valladolid (1550), onde foram discutidos com base no texto da Política, de Aristóteles, os problemas fi losófi cos e culturais que colocados pela chegada a América dos espanhóis no século XVI. Também é autor do livro "Fragmentos de Ternura, Filosofi a e Desterro", livro de contos e poemas de amor. jorgelrg@uol.com.br

SITES DO AUTOR
http://jorgelrg.sites.uol.com.br
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