Especial A revolta do homem absurdo Albert Camus foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Os sentimentos que lhe impulsionaram sua obra, agiam frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol
POR JORGE LUIS GUTIÉRREZ
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São Paulo atual, foto da região da Berrini, zona sul da capital |
A História é um dos temas principais desta obra, e Camus afirma que o absoluto não é alcançado, nem muito menos criado por meio da história, e esta não pode mais ser erigida como objeto. A História não é mais que uma oportunidade, diz Camus, que deve ser tornada profícua por uma revolta vigilante, pois ,"se o tempo da história não é feito do tempo da colheita, a história não é mais que uma sombra fugaz e cruel onde o homem não encontra mais seu quinhão". Com isso, a revolta é o próprio movimento da vida e não pode ser negada sem renunciar à própria vida. Camus continua: "Compreende- se então que a revolta não pode prescindir de um estranho amor. Aqueles que não encontram descanso nem em Deus, nem na história estão condenados a viver para aqueles que, como eles, não conseguem viver: para os humilhados." A revolta deve ser amor e fecundidade ou então ela não é nada. A revolução sem honra, acredita Camus, que ele chama da revolução do cálculo, coloca o ressentimento no lugar do amor, em nome da moderação e da vida. Essa revolução que prefere o homem abstrato ao homem de carne e osso (palavras de Camus que lembram os textos do espanhol Miguel de Unamuno) nega repetidamente a existência. Assim "essa louca generosidade é a da revolta, que oferta sem hesitação sua força de amor, e recusa peremptoriamente a injustiça. Sua honra é de não calcular nada, distribuir tudo na vida presente, e aos seus irmãos vivos. Desta forma, ela é pródiga para os homens vindouros. A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente."
| CAMUS NA METRÓPOLE PAULISTA |
"Entrevista coletiva com a imprensa pela manhã. Almoço de pé, em casa de Andrade. Ás três horas, levam-me, não sei bem por que, à penitenciária da cidade, "a mais bela do Brasil". É "bela", na verdade, como um presídio de filme americano. A não ser pelo cheiro, o cheiro horrível de homem que se impregna em todas as prisões. Grades, portas de ferro, grades, portas etc. E, de quando em quando, um letreiro: Seja bom" e sobretudo "Otimismo". Sinto vergonha diante de um ou dois detentos, aliás privilegiados, que fazem o serviço da prisão. O médico- psiquiatra, em seguida, me chateia com as classifi- cações de mentalidades perversas. E alguém me diz, ao sair, a fórmula ritual: " Aqui, você está em sua casa."
Já ia esquecendo. Na ida, passamos numa rua de prostitutas. Elas ficam por trás de portas de lâminas, grandes persianas, pelas quais se deixam vislumbrar, aliás encantadoras na sua maioria. Os preços são discutidos através das persianas pintadas de verde, vermelho, amarelo, azul-celeste. São pássaros na gaiola.
Depois, pequena escalada num arranha-céu mais baixo. São Paulo à noite. O lado conto de fadas das cidades modernas com avenidas e tetos cintilantes. Á volta, o café e as orquídeas. Mas é difícil imaginar (...) Após minha conferência, Andrade [Oswald] me informa que, no presídio- modelo, já se viram detentos suicidarem-se batendo a cabeça contra as paredes e apertando a garganta numa gaveta até a asfixia".
Diário de Viagem, de Albert Camus, da editora Record |
Camus morreu em 4 de janeiro de 1960 num acidente de carro quando voltava para Paris. Assim, sua vida foi interrompida bruscamente
Camus escreve O homem revoltado alguns anos após o termino da Segunda Guerra Mundial, e um dos motivos desta obra é a superação do niilismo. "Estamos neste extremo. No fim destas trevas, é inevitável, no entanto, uma luz, que já se adivinha - basta lutar para que ela exista. Para além do niilismo, todos nós, em meio aos escombros, preparamos um renascimento. Mas poucos sabem isso." E será a revolta o caminho, porque embora ela não possa pretender tudo resolver, pode pelo menos tudo enfrentar. Camus diz então que a partir deste instante, a luz jorra sobre o próprio movimento da História. Essa revolta, no meio-dia do pensamento, recusa a divindade para compartilhar as lutas e o destino comuns dos homens. Para ele a Justiça está viva.
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