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Especial
A revolta do homem absurdo
Albert Camus foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Os sentimentos que lhe impulsionaram sua obra, agiam frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol

POR JORGE LUIS GUTIÉRREZ

É naquele cenário que se revela a natureza humana, cheia de conflitos e nuances. E muitos nessas circunstâncias estão mais vivos que nunca e a vida torna-se para eles intensa e verdadeira. Camus nos diz que onde uns viam a abstração, outros viam a verdade. Assim, por exemplo, o padre Paneloux, desde o púlpito, pregava que essa peste era castigo de Deus: "sim, chegou a hora de refletir. Pensastes que vos bastaria visitar Deus aos domingos para ficardes com vossos dias livres. Pensastes que algumas genuflexões pagariam sufi- cientemente o vosso desleixo criminoso. Mas Deus não é fraco. Essas atenções espaçadas não bastavam à sua ternura devoradora. Ele queria ver-vos mais tempo, é a sua maneira de vos amar que é, a bem dizer, a única maneira de amar". Uma das conseqüências da peste foi que a catedral da cidade encheu de gente e continuava cheia quase todos os dias da semana, enquanto o padre insistia: "Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes". Uma das reações às palavras do padre vem de Rieux, o médico da cidade: "o que é verdade em relação aos males deste mundo é também verdade em relação à peste. Pode servir para engrandecer alguns. No entanto, quando se vê a miséria e a dor que ela traz, é preciso ser louco, cego ou covarde para se resignar à peste".

ALBERT CAMUS POR JEAN-PAUL SARTRE

Camus era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo termo final tratávamos de compreender. Representava neste século e contra a história, o herdeiro atual dessa longa fila de moralistas cujas obras constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas. Seu humanismo obstinado, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate duvidoso contra os acontecimentos em massa e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela teimosia de suas repulsas, reafirmava, no coração de nossa época, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do fato moral. Era, por assim dizer, esta inquebrantável afirmação. Por pouco que se o lesse ou refletisse a respeito, chocávamos com os valores humanos que ele sustentava em seu punho fechado, pondo em julgamento o ato político.

Inclusive seu silêncio, nestes últimos anos, tinha um aspecto positivo: este cartesiano do absurdo se negava a abandonar o terreno seguro da moralidade e entrar nos incertos caminhos da prática. Nós o adivinhávamos e adivinhávamos também os conflitos que calava, pois a moral, se se a considera, exige e condena juntamente a rebelião. Qualquer coisa que fosse o que Camus tivesse podido fazer ou decidir a sua frente, nunca teria deixado de ser uma das forças principais de nosso campo cultural, nem de representar a sua maneira a história da França e de seu século.

A ordem humana segue sendo só uma desordem; é injusta e precária; nela se mata e se morre de fome; mas pelo menos a fundam, a mantêm e a combatem, os homens. Nessa ordem Camus devia viver: este homem em marcha nos punha entre interrogações, ele mesmo era uma interrogação que procurava sua resposta; vivia no meio de uma longa vida; para nós, para ele, para os homens que fazem com que a ordem reine como para os que a recusam, era importante que Camus saísse do silêncio, que decidisse, que concluísse. Raramente os caracteres de uma obra e as condições do momento histórico exigiram com tanta clareza que um escritor viva.

Para todos os que o amaram há nesta morte um absurdo insuportável. Mas, teremos que aprender a ver esta obra truncada como uma obra total. Na medida mesmo em que o humanismo de Camus contém uma atitude humana frente à morte que havia de surpreendê-lo, na medida em que sua busca orgulhosa e pura da felicidade implicava e reclamava a necessidade desumana de morrer, reconheceremos nesta obra e nesta vida, inseparáveis uma de outra, a tentativa pura e vitoriosa de um homem reconquistando cada instante de sua existência frente à sua morte futura.

Escrito um dia após a morte de Camus. Tradução: Jorge Luis Gutiérrez - Revisão: Terezinha Arco e Flexa

Assim a vida na cidade, apesar da peste, continua. E as pessoas vão revelando diferentes aspectos de sua vida. Pessoas medíocres começam a encontrar sentido no ato humano. Muitos, dentro dessa cidade, vivem uma santidade sem Deus. E este é o grande problema a ser resolvido. Trata-se de ser solidário, porém tendo como único fundamento a humanidade. Todo fundamento está nesta terra e nunca fora dela. Na peste os homens descobrem a fraternidade puramente humana. E este é o paradoxo do livro.

O homem revoltado é a obra mais polêmica de Camus. Foi publicada em 1951. Nela o absurdo da vida abre o caminho para a revolta. É uma obra escrita contra os crimes de Estado. Especialmente os do Stalinismo da União Soviética. Isto causa uma forte briga intelectual (e em alguns momentos não tão intelectual) entre Camus e Sartre, tornada pública nas páginas da revista Les Temps Modernes. Lembremos que nessa época Sartre apoiava o regime soviético e era diretor da revista. O livro começa afirmando que "há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrario, adultos, e seu álibi é irrefutável: a Filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes". Para Camus, o homem revoltado não exige a vida, mas as razões da vida, e a revolta é uma ascese, embora cega. Para ele, a "insurreição humana, em suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser então um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada". Assim, a revolução consiste em amar um homem que ainda não existe. E nada pode justificar os crimes feitos em nome da História.

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