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Especial
A revolta do homem absurdo
Albert Camus foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Os sentimentos que lhe impulsionaram sua obra, agiam frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol

POR JORGE LUIS GUTIÉRREZ

Um dos problemas que será apresentado ao personagem pelo capelão da prisão é o de Deus, que pode ser resumido na esperança numa outra vida. Ante a pergunta do capelão se ele não gostaria de ter uma outra vida, Meursault responde que nunca se muda de vida, pois todas se equivalem e que a sua não lhe desagradava em absoluto. E quando o capelão lhe pergunta, "não tem, então, nenhuma esperança e consegue viver com o pensamento de que vai morrer todo por inteiro?", Meursault simplesmente responde sim. O capelão insiste: "não, não consigo acreditar. Tenho certeza de que já lhe ocorreu desejar uma outra vida". Meursault responde que sim, mas que isso era tão importante quanto desejar ser rico, nadar muito de pressa ou ter uma boca mais bem feita. Tudo isso era para Meursault da mesma ordem. Quando o capelão quis saber como ele imaginava essa outra vida, Meursault lhe responde gritando: "uma vida na qual me pudesse lembrar desta vida". Após a saída do capelão, a vida continua na cela, Meursault narra: "Reencontrei a calma, depois que ele partiu. Estava esgotado. Atirei-me sobre o leito. Acho que dormi, pois acordei com estrelas sobre o rosto. Subia até mim os ruídos do campo. Aromas de noite de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram sirenes. Anunciavam partidas para um mundo que me era para sempre indiferente." Meursault também não se arrepende, pois, segundo as suas palavras, nunca conseguira se arrepender verdadeiramente de nada.

Assim, prisioneiro, entediado e sabendo que vai morrer, Meursault dedica-se a lembrar. E as lembranças também adquirem as tonalidades do absurdo. "Assaltaram- me as lembranças de uma vida que já não me pertencia, mas onde encontrara as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: cheiros de verão, o bairro que eu amava, um certo céu de entardecer, o riso e os vestidos de Marie." Porém, nessa situação há algumas certezas. A primeira é que nunca se é completamente feliz e a segunda que a vida não vale a pena ser vivida. A esperança também deixa de ter sentido, considerando que está condenado à morte.

Nesse enredo, Marie Cardona, uma antiga datilógrafa do escritório, sua namorada, é uma das lembranças mais freqüentes. Ele tomava banhos de mar com ela ("Eu estava ainda na água, quando ela já se deitara na bóia, de bruços. Virou-se para mim. Os cabelos caíam-lhe nos olhos e sorria. Quando o sol ficou forte demais, ela mergulhou e eu a segui. Alcancei-a, passei o braço em volta da sua cintura e nadamos juntos. Ela continuava a rir."), iam ao cinema ("O filme tinha momentos engraçados e outros realmente idiotas. A sua perna estava encostada na minha. Acariciava-lhe os seios."), ficavam nus na cama ("Desejeia intensamente, porque usava um belo vestido de listras vermelhas e brancas e sandálias de couro. Adivinhavam-se seus seios firmes e o queimado do sol lhe dava um aspecto de flor").

REPRODUÇÃO
O homem revoltado foi publicado em 1951, uma obra escrita contra os crimes de Estado, especialmente os do Stalinismo da União Soviética. Na imagem em Gulag, fator que causa a briga intelectual entre Camus e Sartre, tornada pública nas páginas da revista Les Temps Modernes

ART RENEWAL INTERNATIONAL

O Mito de Sísifo publicado em 1942, é a obra mais filosófica de Camus. O livro começa colocando o único problema fundamental e, verdadeiramente, sério: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida. Para o filósofo, todos os outros problemas vêm depois, como, por exemplo, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias. Primeiro é preciso responder àquela pergunta. E acrescenta, com uma dose de ironia: "nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico.

Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranqüilidade assim que viu sua vida em perigo."

Uma das cenas do romance onde fica mais claro o que é o sentimento de absurdo frente à vida é quando Marie pergunta a Meursault se quer casar com ela. Ele responde que tanto fazia, mas que, se ela queria, poderiam se casar. Marie quer saber então se ela a ama. Meursault responde que não a amava, porém que isso não queria dizer nada. Marie então pergunta que nesse caso, por que casarse com ela. Meursault responde que isso não tinha importância alguma e que, se ela o desejava, poderiam-se casar, e que era ela quem o estava pedindo, e ele se contentava em dizer que sim. Maria argumenta que o casamento é uma coisa séria. Meursault responde que não. Maria fica em silêncio olhando para ele, para logo perguntar se o pedido tivesse sido feito por outra mulher, com a qual tivesse o mesmo relacionamento, ele teria respondido do mesmo modo. Meursault responde que sim. Frente a isso Marie pergunta a si própria se ama a Meursault. Logo, após outro instante de silêncio, Marie fala para Meursault que ele é uma pessoa estranha e que o amava certamente por isso mesmo, mas que talvez, um dia, pelos mesmos motivos, ele a decepcionaria. Como Meursault ficou calado, Marie o tomou do braço sorrindo, e lhe diz que queria casar com ele. Meursault respondeu que sim, desde que ela quisesse.

Mas, voltemos à prisão e Meursault condenado à morte. Na sua cela ele continua narrando o que lhe está acontecendo: "Do fundo do meu futuro, durante toda esta vida absurda que eu levara, subira até mim, através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava, à sua passagem, tudo o que me haviam proposto nos anos, não mais reais, que eu vivia."

Assim, a vida na prisão revela o tédio e o absurdo, a falta de sentido e a inutilidade da própria vida. Esse sentimento é mais forte quando ele tem que enfrentar o tribunal que o julgava. Enquanto o advogado argumentava em defesa de Meursault, ele ouvia lá fora a buzina do vendedor de sorvete. Mas é então que as lembranças chegam. Então tudo se torna confuso e estranho, absurdo, inútil. Frente a isso, Meursault só quer voltar para a sua cela e dormir. E finaliza dizendo: "Mal ouvi o advogado clamar, para concluir, que os jurados não gostariam certamente de condenar à morte um trabalhador honesto, perdido por um minuto de desvario; e pedir as circunstâncias atenuantes para um crime cujo remorso eterno, o mais seguro dos castigos, eu já arrastava comigo".

O livro termina evocando a fraternidade do mundo, a natureza e a vida. São as últimas palavras de um condenado à morte e nelas parece estar condensado todo seu sentimento frente à vida e a saudade de uma vida que logo acabaria definitivamente e ante a qual só podia sentir indiferença. Escutemos sua última fala: "Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à tenra indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fora feliz e que ainda o era".

O mito de Sísifo foi publicado em 1942 e é, possivelmente, a obra mais fi- losófica de Camus. Agora ele problematizará filosoficamente a vida e refletirá sobre ela. Nesta obra o tema do absurdo aparece em toda sua plenitude. E será o conceito fundamental para compreender a existência humana, do homem comum, que quer ser feliz e se interroga. A lucidez será a atitude essencial deste homem. O livro começa colocando o único problema fundamental e, verdadeiramente, sério: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida. Para o filósofo, todos os outros problemas vêm depois, como, por exemplo, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias. Primeiro é preciso responder àquela pergunta. E acrescenta, com uma dose de ironia: "nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranqüilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente".

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