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Especial
A revolta do homem absurdo
Albert Camus foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Os sentimentos que lhe impulsionaram sua obra, agiam frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol

POR JORGE LUIS GUTIÉRREZ

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FICHA TÉCNICA:
Diário de Viagem
Por: Albert Camus
Editora: Record - 154 páginas

Em 1950, a editora Gallimard publicou a obra Noces e, em 1954, L´éte. Estas obras hoje formam um só livro e foram publicadas com o titulo Noces suivi de L´été (em português, Núpcias, o verão, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979). Esta é uma obra da juventude de Camus. Nela ainda não aparecem os temas que surgirão em livros posteriores, como o absurdo e a revolta. Nesta etapa Camus aceita a vida, e a vive, sem entrar na problemática filosófica dela. Há uma espécie de união com a natureza e, especialmente, com o sol e o mar, um certo otimismo que nasce dessa união. Vejamos um texto de exemplo: "Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quanto a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar." Nesses cenários de grandeza natural e liberdade humana, Camus afirma que não há vergonha alguma em ser feliz. Tudo está junto, a glória, a alegria, os encontros, a brisa fresca e o orgulho da condição de homem. Escutemos novamente ao próprio Camus: "Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direito de amar sem medida. Existe apenas um único amor neste mundo. Estreitar um corpo de mulher e também reter de encontro a si essa alegria estranha que desce do céu para o mar. Daqui a pouco, quando me atirar no meio dos absintos, a fim de que seu perfume penetre meu corpo, terei consciência, contra todos os preconceitos, de estar realizando uma verdade que é a do sol e que será também a de minha morte. Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou representando aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. A brisa é fresca e o céu, azul. Gosto imensamente desta vida e desejo falar sobre ela com liberdade: dá-me o orgulho de minha condição de homem."

É então que Camus compreende que há um tempo para viver e um tempo para testemunhar a vida. Essa vida que se expande sobre o mar, no silêncio enorme do meio-dia. Então Camus diz: "Todo ser belo tem o orgulho natural de sua beleza, e o mundo, hoje, deixa seu orgulho destilar por todos os poros. Diante dele, por que haveria de negar a alegria de viver, se conheço a maneira de não encerrar tudo nessa mesma alegria de viver?" E nessa terra os deuses resplandecentes retornam cada dia à sua morte cotidiana. E onde outros deuses virão, nascendo do coração da terra para serem mais sombrias, suas faces devastadas.

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Cartaz do filme O estrangeiro, criado a partir da obra homônima de Camus, estrelado pelo italiano Marcello Mastroianni

O estrangeiro foi publicado em 1942 e é, possivelmente, o romance mais conhecido de Camus. Começa com a conhecida frase "Hoje, morreu mamãe, Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. Isto não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem". Nesta obra ele nos apresenta um mundo incoerente. A personagem principal é Meursault e será ele que terá que viver a dimensão absurda da vida humana, dimensão sempre presente, que acompanha ao homem por toda sua existência. Aprofunda nesta obra sua visão do absurdo de um modo literário, e narra a experiência absurda de Meursault, através das muitas situações - absurdas - que ele viverá. O tédio, a repetição de situações, as pequenas coisas, as situações sem sentido, os pensamentos, são os elementos do cotidiano absurdo. A vida é um eterno sem sentido. Só fica uma espécie de saudade da felicidade, sendo que o mais freqüente é a indiferença frente ao mundo. Mas nele também estão a natureza, as ruas, os cenários em que vivemos a experiência do absurdo. "As luzes da rua acenderam-se bruscamente e fizeram empalidecer as primeiras estrelas que subiam na noite. Senti os olhos se cansarem, de tanto olhar as calçadas, com sua carga de homens e de luzes."

Mas a vida de Meursault, sem sentido, rotineira e medíocre, vê-se bruscamente mudada quando ele assassina um árabe. Ele é levado para a cadeia e será lá que se desenvolverá a segunda parte do livro. Agora ele terá tempo para pensar. É então que o absurdo fazse mais evidente. Meursault é condenado à morte. Agora ele sabe que vai morrer. O absurdo da vida torna-se ainda mais evidente. E também o tédio, que só poderá ser superado pelas lembranças da vida anterior: "todo o problema, ainda uma vez, estava em matar o tempo. Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar." Assim, as lembranças têm uma força quase que redentora: "compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia, sem dificuldade, passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar."

A MORTE FELIZ

"[...] A manhã que despontou estava cheia de pássaros e de ar fresco. O sol subiu rapidamente e de um salto ficou acima do horizonte. A terra cobriu-se de ouro e de calor. Na manhã, o céu e o mar se salpicavam de luzes azuis e amarelas, com grandes manchas que saltavam. Um vento leve erguera-se, e pelas janelas um ar com gosto de sal vinha refrescar as mãos de Mersault. Ao meio-dia o vento cessou, o dia explodiu como um fruto maduro e sobre toda a extensão do mundo escorreu como um suco morno e sufocante, ao som de um repentino concerto de cigarras. O mar cobriu-se deste suco dourado como um óleo e devolveu à terra esmagada pelo sol um sopro quente, que a impregnou, exalando cheiros de absinto, de alecrim e de pedra quente. Da cama, Mersault captou esse choque e essa oferenda e abriu os olhos sobre o mar imenso e curvo, reluzente, povoado de sorrisos de seus deuses. Deu-se conta, de repente, de que estava sentado na cama e que o rosto de Lucienne estava bem perto do seu. Lentamente subia dentro dele, como que desde o ventre, uma pedra que se encaminhava para a garganta. Respirava cada vez mais rápido, aproveitando as passagens. A coisa continuava a subir. Olhou para Lucienne. Sorriu sem uma crispação, e também esse sorriso vinha do interior. Recostou-se na cama, sentindo a lenta subida que havia em si. Olhou para os lábios inchados de Lucienne e, por trás dele, o sorriso da terra. Ele os via com o mesmo olhar e com o mesmo desejo. "Daqui a um minuto, daqui a um segundo", pensou. A subida terminara. E, pedra entre as pedras, ele retornou, na alegria de seu coração, à verdade dos mundos imóveis."

Trecho do livro A morte feliz, de Albert Camus, da Editora Record. Este romance não foi publicado em vida. Escrito entre 1936 e 1938, pode ser considerado uma espécie de preâmbulo de O estrangeiro

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