Especial A revolta do homem absurdo Albert Camus foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Os sentimentos que lhe impulsionaram sua obra, agiam frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol
POR JORGE LUIS GUTIÉRREZ
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| Representação do Mito de Sísifo, tema da obra homônima mais filosófica de Camus, pelo italiano Tiziano Vecellio, de 1549 |
"Camus era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo termo final tratávamos de compreender. Representava neste século e contra a história, o herdeiro atual dessa longa fila de moralistas cujas obras constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas." Estas palavras de Jean-Paul Sartre sobre seu amigo Albert Camus, são quiçá as que melhor o descrevem. Pois Camus, nascido na Argélia, em 1913, é um dos pensadores mais profundos e originais da língua francesa. Um indício disto é que lhe foi outorgado o Prêmio Novel de Literatura, em 1957. O pensamento de Camus envolve alguns dos grandes temas da Filosofia: o absurdo, o sentido da existência, a revolta e o amor pela vida. "Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida", estas palavras colocadas por Camus na boca de Jean-Baptiste Clamence, personagem central do livro A Queda, são uma boa síntese de sua filosofia.
Albert Camus foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou- se ao teatro, militante político e polemista. Famosas são suas polêmicas com Roland Barthes sobre o livro A Peste, e com Jean-Paul Sartre sobre o livro O Homem Revoltado. Em Camus, sua vida e sua obra entrelaçam-se de uma maneira fecunda e criativa. São seus sentimentos que impulsionam sua obra, seu sentir frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol. Para Camus, um grande escritor sempre traz consigo seu mundo e sua prédica. E o mundo de Camus é um mundo do absurdo, num primeiro momento, e da revolta num segundo. Da fraternidade e da solidariedade. Dos mal-entendidos e da miséria. Do sol e dos desertos, especialmente no livro O estrangeiro, onde o personagem Meursault mata "por causa do sol" frente ao mar e ao deserto. Porém, não são somente as personagens que se sentem como estrangeiros, Camus sentese também estrangeiro neste mundo, por isso o titulo do livro. Sente-se exilado, atuando sempre num cenário para o qual não estava preparado e não consegue entender. Suas expectativas são sempre diferentes das que a vida oferece. Então, nasce o sentimento de exílio. Ele afirma: "não existe pátria para quem desespera e, quanto a mim, sei que o mar me precede e me segue, e minha loucura está sempre pronta. Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe. Eis porque sofro, de olhos secos, este exílio. Espero ainda. Um dia chega, enfim."
O estrangeiro, que se passa na Argélia, foi publicado em 1942 e é, possivelmente, o romance mais conhecido de Camus
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| Para o franco-argelino Albert Camus, o homem absurdo é aquele que, sem o negar, nada faz pelo eterno |
Ele não é um filósofo preocupado com definições nem com um rigor conceitual. Para ele, a Filosofia sempre é vida e os parâmetros do filosofar são sempre subjetivos e ancorados na sua vida. Sua filosofia é um pensar sobre a existência, porém não desde seus aspectos teóricos ou conceituais, mas práticos e existenciais. Assim, constantemente, está referindo-se a ele mesmo. E novamente serão as personagens do livro A queda que falam: "Nunca me lembrei senão de mim mesmo. Nunca me preocupei com os grandes problemas, eu vivia intensamente e num livre abandono à felicidade." A subjetividade vai até o próprio conceito de verdade, quando Camus afirma "chamo verdade a tudo o que continua." Assim, Camus é um filósofo preocupado com os simples, cotidianos e profundos problemas da existência. Especialmente com a felicidade. E quando se refere a ela, novamente suas personagens expressam-se. Vejamos um exemplo: "então, planando em pensamento por cima de todo este continente que me é subordinado sem saber, bebendo a luz de absinto que se eleva, ébrio, enfim, de palavras más, sou feliz, sou feliz, estou lhe dizendo, proíbo-o de não acreditar que sou feliz, que morro de felicidade! Ah, sol, praias, e as ilhas sob o os alísios, juventude cuja lembrança desespera!" Sempre sobre uma terra onde tudo é "Tarde demais, longe demais".
A obra de Camus é extensa e variada. Analisaremos alguns aspectos dela. Em Camus, a Filosofia e literatura misturam- se criativamente. A Filosofia vai sendo elaborada mediante os diálogos das personagens, do enredo das obras, nos romances, nas peças de teatro. É a ficção que caminha com a Filosofia através da obra de Camus. E é através das personagens que vai delineando-se sua filosofia e seu sentimento frente ao mundo. Vejamos o caso de Janine. Ela é a única mulher protagonista das obras do francês, personagem central do conto A mulher adultera. Ela enfrenta um problema complexo: seu exílio é seu próprio corpo. Por isso, embora Janine estivesse lá, nada se assemelhava ao que havia imaginado. Vemos novamente o problema das expectativas, das esperanças, do que imaginamos e o que de fatos são as coisas. Por isso para Janine nada se passava como previra, nem nada se assemelhava ao que havia esperado. E, novamente, o sentimento que se está vivendo num mundo estranho, num cenário diferente do que devia ser. Por isso Janine não sabia onde colocar a bolsa, onde se colocar a si própria. Ela sentia apenas a sua solidão, o frio que a penetrava e um peso maior no lugar do coração. Camus coloca nessa mulher os matizes de sua filosofia, e novamente aparecem as palavras "falta" e "espera". Vejamos o texto: "Lá embaixo, mais para o sul, no lugar em que o céu e a terra se uniam numa linha pura, lá embaixo parecia-lhe que, de repente, alguma coisa até aquele dia desconhecia e que, no entanto, sempre lhe fi- zera falta, estava à sua espera.". E ainda: "Janine não conseguia se arrancar à contemplação desses fogos à deriva. Girava com eles, e o mesmo caminhar imóvel unia-a, pouco a pouco, ao seu ser mais profundo, onde o frio e o desejo agora se combatiam. Diante dela, as estrelas caíam uma a uma, depois extinguiam-se entre as pedras do deserto; a cada vez, Janine abria-se um pouco mais para a noite. Respirava, esquecia o frio, o peso dos seres, a vida demente ou imobilizada, a longa angústia de viver e morrer. Depois de tantos anos durante os quais, fugindo do medo, correra loucamente sem objetivo, finalmente ela se detinha. Parecia que encontrara suas raízes, a seiva tornava a subir em seu corpo, que já não temia". Tudo isso tornava Janine uma mulher adúltera: ela se abria para a noite e deixava a seiva e o frio subir por seu corpo. Ela era adúltera porque respirava esquecida do frio que a penetrava e do peso dos seres. Era adúltera porque traía sua vida demente e imobilizada e a longa angústia de viver e morrer e entregava- se a uma outra vida, a outros sentimentos, e parecia-lhe que encontrara finalmente algo que sempre esteve á sua espera e que ela até aquele dia desconhecia, porém sempre lhe fizera falta.
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